Adoro escrever cartas. Assim como adoro receber escritos dos outros. Elas nem sempre representam o que sinto, o que vivo. Às vezes, representam o que outros sentem, transformo histórias em cartas, ficções em cartas, sentimentos também. Cartas são declarações. É como abrir o coração e deixar sair qualquer coisa de lá, diretamente a alguém – ou não.
Mais uma carta, bem longa. Mais uma.
“Gui,
Engraçado que leio todos os cartões e mensagens que trocamos ao longo dos anos e a sensação é que eles poderiam ter sido escritos em qualquer data desde aquele dezembro de 97. Eles poderiam ter sido escritos ontem, por exemplo, que fariam todo o sentido do mundo. A primeira mensagem que você me escreveu dizia em um trecho assim: “Não precisamos temer nossos sentimentos. Nos conhecemos tão bem, assim como não conhecemos ninguém…”. Nada mais atual, não é?
Vivi coisas lindas a seu lado e descobri a forma mais sublime do amor, que sobreviveu ao tempo, que não magoa, não machuca, não ilude, que sempre foi sincero e honesto nas horas difíceis, até para abrir mão dele mesmo, do amor. Quanto respeito, amizade e cumplicidade conseguimos cultivar… Sempre me perguntei por que mantínhamos essa história viva, e por que nem mesmo tentávamos nos separar. De uma forma ou de outra, ainda que inconscientemente, estivemos sempre juntos.
Tão intensa e tão forte esta relação, a ponto de sentirmos quando o outro não está bem. Quantas vezes meu telefone – ou o seu – tocou só porque o outro pressentiu que alguma coisa estava acontecendo? Enfim… Desisti de entender. Tive minhas crises, exigindo compreender até onde chegaríamos; percebi o quanto pessoas próximas não conseguiam assimilar esse relacionamento a que demos vazão e tão esquisito aos olhos externos. Eu mesma cheguei a aceitar o quão estranho era isso tudo.
Hoje, sinto um vazio. Talvez você não tenha a mesma inquietação, talvez tenha sido especial só pra mim, não importa. O que importa, neste exato momento, é esse vazio em mim. É a sensação do círculo que se fechou, da linha que se rompeu. Nunca cobrei de mim uma explicação para o fato de não estarmos juntos. Mas naquela noite, ao desligar o telefone, a primeira pergunta que me fiz foi o que estávamos fazendo de nós. E cheguei à triste conclusão do quão covardes nós fomos, nós somos e sempre seremos.
Covardes por nunca termos aberto mão um do outro, mesmo sabendo que jamais dividiríamos uma vida. Você, talvez mais ainda, por ter feito uma escolha tão medíocre, de viver distante da pessoa que diz amar, independente do que ela pensa sobre o assunto. Quanto a mim, minha covardia está no fato de não ter resistido, de nunca ter tido coragem de colocar um ponto final, de ter recuado e cedido a seus pedidos todas as vezes que disse não.
Mas somos humanos. E isso é um consolo imenso, porque podemos nos dar a chance de errar, corrigir, voltar atrás, resistir, tudo sem a menor culpa. Hoje digito estas palavras com a batida do coração acelerada. A mesma aceleração que sinto ao colocar a mão sobre o seu peito em todas as vezes que estivemos juntos. Nossa! Quanto representa um coração batendo forte quase onze anos depois? Você já parou pra pensar nisso?
Me pergunto como será daqui em diante. Quando a saudade bater, o que farei? Aliás, o que farei quando der vontade de ouvir você cantar (ainda que tão desafinado!!!!), quando der vontade de te beijar, de te tocar, de conversar sobre futebol, política, o mundo? De deitar no seu peito na cama, de ouvir sua voz, e de até ouvir o “eu te amo” que você jamais deixou de falar.
Sim, isso é uma carta de despedida. Com todas as dores que ela pode trazer, com todos os dramas que pode causar, e com toda a saudade também. Um dia você me disse que era impossível sermos apenas amigos. Eu discordei naquela época, te achei imaturo e precipitado. Questionei sua afirmação e te chamei de menino. Mas hoje me rendo às suas palavras e vou me redimir: você sempre teve toda a razão quanto a isso. Nunca resistiríamos à tentação.
Um beijo, meu amor. Daqueles que aprendemos a dar. De olhos fechados, de gosto apimentado. Fica bem e seja feliz. Porque, no final das contas, é a única coisa que importa. Nada paga envelhecer ao lado de alguém que te faça rir com bobagens e com coisas sérias; que te faça ter vontade de dormir e acordar ao lado; que levante seu humor nas horas em que o mundo parece desabar nas suas costas; que te faça enxergar os caminhos; que te mostre o lado positivo das piores tragédias; com quem você sinta vontade de conversar sobre o universo inteiro. Nada paga estar ao lado de alguém de quem você possa se orgulhar dia-a-dia. É essa a pessoa que desejo pra sua vida.
Quanto a mim, vou procurar alguém pra dividir um mesmo quarto de um apartamento qualquer. Ah, sim, e que aceite ampliar o closet para que possamos organizar nossas coisinhas separadas, embora juntas (sim, você me fez mudar de idéia e rever meu conceito de convivência). Agora, com a certeza do que eu quero pra mim: me apaixonar reiteradas vezes pelo mesmo homem por toda a minha vida, casar e, quem sabe, ter um filhinho que vou batizar João Felipe… A sua Maria, o meu João… Cada um com o seu.
Amo-te,
Bia”