Ensaio sobre a cegueira no cinema

Setembro 13, 2008

Fui ver Ensaio Sobre a Cegueira na sexta-feira, 12, dia da estréia nacional. Estava ansiosa pela chegada do filme aos cinemas, por causa do livro homônimo do qual foi adaptado. Meu fascínio pela obra de Saramago criou em mim uma expectativa muito grande com relação à adaptação para as telonas. Uma expectativa tão grande que nem ao trailler eu assisti. Por pura opção.

Adaptar uma obra literária para o cinema é privilegiar um olhar sobre ela – o do diretor. Cada um que lê um livro constrói sua própria versão dos fatos. Embora haja uma linha comum – a história ali narrada-, cada leitor remonta as cenas do seu jeito, valoriza determinadas características dos personagens, se transforma no diretor pessoal daqueles escritos.

Posso dizer que o resultado da adaptação é fascinante. O filme é forte, intenso e sensível. É um retrato fiel da obra, um olhar cuidadoso que valorizou o que de mais belo tem no texto de Saramago. Destaque para a atuação de Julianne Moore, intérprete da mulher do médico, única personagem que não perdeu a visão. É ela que carrega a responsabilidade de transformar o ato de enxergar em dor e sofrimento.

Imagino o quanto deve ser difícil remontar em imagens uma obra de Saramago. Mas Fernando Meirelles cumpriu seu papel com maestria. A ponto de fazer o próprio Saramago chorar de emoção ao ver o filme. Compreensível, já que algumas cenas são muito marcantes. Dentre elas, a que Moore cai em lágrimas. É o símbolo do desespero de alguém que carrega a responsabilidade de ser os olhos dos outros e, por meio deles, enxergar a degradação humana.

Toda a narrativa fílmica do período de quarentena, quando as pessoas “contaminadas” pela cegueira são jogadas em um galpão, a fim de evitar a disseminação do vírus, é de uma maestria singular. Isolados da sociedade que ainda enxerga, e vigiados por seguranças que têm ordens para matar qualquer um que tente fugir, eles criam novas regras de sobrevivência. O local se transforma em um verdadeiro caos humano.

Para quem quiser ler mais sobre o filme, aconselho dar uma passadinha no blog Espaço Lumière, de meu amigo Wanderley Teixeira. Ele fez um texto belíssimo sobre a produção. Aliás, eu indico o blog dele para todos que gostam de cinema. Passem por lá e entenderão por que faço questão de indicá-lo.


Novas descobertas

Setembro 6, 2008

Há algum tempo, coloquei um post aqui falando de uma música que me trazia sensação de tristeza, embora passasse horas ouvindo-a ininterruptamente. Alguém fez um comentário no post, falando que a tal música integrava a trilha sonora de um filme, chamado “A Vida Secreta das Palavras”. Hoje decidi assistir à produção. E o primeiro impacto que tive foi concluir que é uma grande ingenuidade minha achar que tudo na vida tem um lado bom.

Percebi que cada um guarda suas próprias dores. Há dores que não se medem e há tristezas que não têm fim. O quanto pequenos podemos ser, o quanto podemos ignorar sentimentos, desconhecê-los. Podemos achar que sabemos muito, que sabemos tanto. Mas há sofrimentos que fogem ao entendimento de quem nunca os viu invadir seus peitos sem piedade. Há tormentas que apenas precisam ser respeitadas, que não têm lado bom algum, que são de todo ruins.

A gente demora a entender tanta coisa. Hoje me senti um pedacinho pequeno de mundo. Quase invisível de tão pequeno. Acho que agora, neste exato momento, início da tarde de um sábado, começo a conhecer um pouco mais da vida. Autodescoberta, superação, angústia, impotência, sofrimento… A vida pode ser difícil a ponto de doer. De doer fisicamente mesmo. De doer psicologicamente. De doer para todo o sempre. De doer sem cessar um único dia.

Há dores que são intransponíveis, que passarão a vida como dores.


Hoje eu chorei

Agosto 3, 2008

Comprei o livro O Caçador de Pipas há mais de um ano. Nunca o li. Aliás, não abri a primeira página. Não foi por falta de interesse ou vontade. É que tantas coisas aconteceram àquela época, que ele ficou esquecido em minha estante. Depois, emprestei o livro a alguém que nunca me devolveu. Hoje não sei por onde o livro anda. Foi hoje também que vi o DVD do filme na mesa da sala de minha casa. Em questões de segundos já tinha transformado meu quarto em sala de cinema.

Não quero falar em crítica cinematográfica, em elementos de narração. Não. Eu quero falar de emoção, de sentimentos, de coração, de amor. Talvez esteja eu em algum período sensível, ou o filme tenha mesmo esse lado comovente, mas é que O Caçador de Pipas me fez chorar. Sim, chorei. Chorei de soluçar, de me engasgar com minhas próprias lágrimas, de perder o controle e não conseguir fazer as gotas salgadas pararem de rolar pelo meu rosto.

Não, eu não costumo chorar diante de filmes, programas dramáticos de televisão ou afins. Mas hoje eu chorei. Um choro sentido, um choro sofrido. De alguma forma, um turbilhão de sentimentos me tomou por alguns segundos, ou minutos inteiros, creio eu. Porque eu estou falando disso aqui? No fundo, deve ser porque sempre tive receio de demonstrar esse lado sentimental. De deixar público que por trás da fortaleza, há delicadeza e doçura.

Há lágrimas que demoram a escorrer, mas que escorrem também. Hoje eu chorei. De ficar com os olhos ensopados, com o nariz avermelhado e a vista turva. Hoje eu chorei de emoção, de raiva, de amor. Hoje me arrancaram bruscamente do meu mundo, da comodidade de casa, embora eu nem tenha tirado os pés da minha própria cama. Permiti me envolver com aquela história, extravasei, eu estava ali. E chorei.