Fui ver Ensaio Sobre a Cegueira na sexta-feira, 12, dia da estréia nacional. Estava ansiosa pela chegada do filme aos cinemas, por causa do livro homônimo do qual foi adaptado. Meu fascínio pela obra de Saramago criou em mim uma expectativa muito grande com relação à adaptação para as telonas. Uma expectativa tão grande que nem ao trailler eu assisti. Por pura opção.
Adaptar uma obra literária para o cinema é privilegiar um olhar sobre ela – o do diretor. Cada um que lê um livro constrói sua própria versão dos fatos. Embora haja uma linha comum – a história ali narrada-, cada leitor remonta as cenas do seu jeito, valoriza determinadas características dos personagens, se transforma no diretor pessoal daqueles escritos.
Posso dizer que o resultado da adaptação é fascinante. O filme é forte, intenso e sensível. É um retrato fiel da obra, um olhar cuidadoso que valorizou o que de mais belo tem no texto de Saramago. Destaque para a atuação de Julianne Moore, intérprete da mulher do médico, única personagem que não perdeu a visão. É ela que carrega a responsabilidade de transformar o ato de enxergar em dor e sofrimento.
Imagino o quanto deve ser difícil remontar em imagens uma obra de Saramago. Mas Fernando Meirelles cumpriu seu papel com maestria. A ponto de fazer o próprio Saramago chorar de emoção ao ver o filme. Compreensível, já que algumas cenas são muito marcantes. Dentre elas, a que Moore cai em lágrimas. É o símbolo do desespero de alguém que carrega a responsabilidade de ser os olhos dos outros e, por meio deles, enxergar a degradação humana.
Toda a narrativa fílmica do período de quarentena, quando as pessoas “contaminadas” pela cegueira são jogadas em um galpão, a fim de evitar a disseminação do vírus, é de uma maestria singular. Isolados da sociedade que ainda enxerga, e vigiados por seguranças que têm ordens para matar qualquer um que tente fugir, eles criam novas regras de sobrevivência. O local se transforma em um verdadeiro caos humano.
Para quem quiser ler mais sobre o filme, aconselho dar uma passadinha no blog Espaço Lumière, de meu amigo Wanderley Teixeira. Ele fez um texto belíssimo sobre a produção. Aliás, eu indico o blog dele para todos que gostam de cinema. Passem por lá e entenderão por que faço questão de indicá-lo.
Escrito por Alane Virgínia