Aparências

Março 14, 2008

Olha eu de volta às minhas impressões sobre o Sul. Depois de vários dias sem tocar no assunto, decidi pegar meu caderninho cheio de anotações e dar seguimento à minha empreitada de escrever o que notei, observações bem pessoais. Uma das coisas que me chamou a atenção por lá foi a preocupação das pessoas com as aparências. Não falo de aparência física apenas, mas da aparência da casa, por exemplo. Todas bem arrumadas, cuidadas, não importa a clase social.

Talvez porque por lá, dá-se uma importância grande à aparência. Não, eu não estou julgando, não estou dizendo que isso é bom ou ruim, mas apenas narrando. Cada um que faça seus próprios julgamentos se o quiser. Não é esta a minha intenção. Voltando às aparências, a preocupação é tanta com o que mostrar, que você nunca (ou quase nunca) será bem-vindo se a visita não for comunicada com antecedência. Porque o dono da casa quer sempre receber bem, ter uma coisinha gostosa a oferecer, quer estar preparado para ter alguém de fora em sua casa.

A priori, achei que era apenas uma sensação, mas algumas pessoas me confirmaram que isso acontece mesmo por lá. Assim, uma visita inesperada em um momento inoportunido pode gerar constrangimentos e até um mau humor (ainda que passageiro). Aí me lembrei daqui da terrinha. Difícil é a visita ligar, marcar com antecedência, avisar que vai chegar em alguns dias.

Mas por aqui, com todos os contratempos que isso possa gerar, as visitas aleatórias são bem-vindas na maioria das vezes. É cultural também. Aqui, coloca-se mais água no feijão, alguém corre rapidinho ali no mercado da esquina pra comprar umas azeitonas e queijos, no barzinho se compra umas cervejinhas e aquela visita inesperada vira motivo de festa.

Sem comparações, importante mesmo é respeitar o costume de cada lugar e saber se adaptar às diferenças. Claro que cada um tem sua preferência, mas o gosto pessoal não pode rebaixar o diferente, ou desqualificá-lo. Enfim, novos hábitos podem até nos chocar, nos causar boas ou más impressões. Isso é bem normal. Mas vamos aprender a lidar com eles de uma forma natural e tentar viver as realidades distintas com as quais nos deparamos. É uma experiência gratificante.


Senso de limpeza

Fevereiro 5, 2008

Uma das coisas que mais me chamou atenção no Sul foi a limpeza. Passei a vida ouvindo isso, que no Sul as coisas eram diferentes, que o povo era mais educado neste sentido, que as ruas eram limpas. E são. E muito. Curiosamente, fiquei buscando garrafas plásticas, pedaços de papel, embalagens, qualquer coisa que me lembrasse a sujeira das nossas ruas por lá. Não achei.

Os canteiros são muito bem cuidados. Como chove o ano inteiro, é muito fácil encontrar flores espalhadas pelas cidades e árvores de um verde diferente, muito vivo, muito intenso. Bonito mesmo. Enquanto por aqui amontoam-se pequenos resíduos de qualquer coisa, nos canteiros de lá, nem um pedacinho de papel sequer. Tudo limpo, lindo e com muito capricho.

Em Itajaí, por exemplo, há um convênio ou coisa do gênero com a prefeitura que garante que as flores plantadas nos canteiros da cidade sejam trocadas periodicamente, antes mesmo de suas pétalas começarem a cair. Por isso, lá tem sempre um colorido especial, que varia conforme a época e conforme as flores escolhidas para o local. Agora no verão não faltaram vermelhos, amarelos e laranjas. 

Isso é uma coisa legal. Mais legal ainda é como a população lida com a questão, porque sujar a cidade é motivo de repreensão. E é uma repreensão generalizada mesmo, as pessoas te olham com uma cara zangada, de desprezo, até mencionam o quão mal-educado foi aquele gesto. Não faltam lições de moral neste momento de contrariedade à ordem.

Engraçado como são as questões de costumes do lugar. Porque aqui, em Salvador, quantas pessoas mantêm saquinhos de lixo em seus carros? Quantos guardam aquele papelzinho na bolsa pra jogar fora quando encontrar uma lixeira ou até chegar em casa, quantos pensam nesta questão em algum momento da vida? E com certeza lá não tem mais lixeiras na cidade do que aqui. São tão poucas quanto. É cultural mesmo.

Tanto que carro de lixo lá só passa três vezes por semana… e ainda assim, a limpeza geral é diária. Ah, por falar em recolher lixo, lá os moradores são obrigados a fazer coleta seletiva. Assim, cada um precisa separar tudo o que pode ser reciclado do que é material orgânico. E se você não fizer o recolhimento do lixo doméstico direitinho, ainda toma a maior bronca do gari. E com justo motivo.


Amor aos cães

Janeiro 24, 2008

Eu não sou das mais fãs dos animais. Até gosto deles, mas não preciso conviver para comprovar isso. E na maioria das vezes nem faço tanta questão assim dessa convivência. Mas alguns bichinhos me ganham muito fácil. Principalmente aqueles que viveram na minha casa e aqueles das pessoas que amo. A preferência é disparada pelos cachorros. Por minha casa já passaram Billy, Lesse, Tuty, Raikan, Pretinha, Bolinha, Quase foi (porque o bichinho quase morreu ao nascer.. e aí, ficou quase foi)…

Dos meus amigos, lembro bem de Tobby, Sandy, Wolfgan, Dolly, Leeloo e Brenda.. além de tantos outros papagaios, gatinhos e afins…. Sim, mas comecei a falar em cachorros por um motivo específico. Eu nunca vi tanto cachorro de pedigree junto em um mesmo lugar. Talvez pelo tamanho, porque Itajaí é bem menor que Salvador – em termos populacionais, chega a ser cerca de 10 vezes menor -, a quantidade de cachorros de raças por lá é visivelmente imensa.

Em todas as pequenas ruas por que passei tinha alguns deles desfilando imponentes com seus donos… não sei se as escrevo corretamente, as raças, mas lembro de ter visto Bull Terrier, Yorkshire, Westies, Scottish, Schnauzer, Chow Chow, Puddle, São Bernardo.. estas em apenas uma caminhada rápida em um único dia… conversei com algumas pessoas e percebi que lá, eles gostam mesmo de ter os bichinhos.

E não precisa ter grana pra ter um cachorro de raça em casa. Mesmo aqueles que possuem condição menos favorecida investem pesado nos filhotes dos cãezinhos. Não é à toa que, segundo a percepção de uma amiga minha de lá, o número de pet shops cresceu consideravelmente por lá por Iatajaí. Não só o número de pet shops é grande, mas também o número de farmácias… Deve ser por causa do frio intenso e do calor intenso.. o povo deve ficar muito dodói por lá.. mas é isso é assunto pra outro scrap.


A primeira vez…

Janeiro 22, 2008

Sempre tive muito medo de andar de moto. Um receio inexplicado. Por alguma razão que desconheço, apesar de ser uma amante das duas rodinhas das bicicletas. Depois de ouvir falar em acidentes, mortes, tragédias, incidentes e imprevistos envolvendo motos, depois que conhecer pessoas que tiverem a vida virada de cabeça para baixo em decorrência dos acidentes, criei uma certa resistência, a ponto de evitar, inclusive, os mototáxis das cidades do interior baiano. Pelo menos até este verão.

Em Itajaí, assim como em muitas cidades baianas, as motos fazem parte do cotidiano da cidade. São meios de transporte dos mais utilizados. E multiplicam-se pela cidade. Homens, mulheres, jovens, mais velhos, todos sobre as duas rodinhas. As pessoas arrumadas, mulheres com suas bolsas, maquiadas e bem vestidas, guiando sua Honda a caminho do trabalho, lazer. Ou sobre as bicicletas também. Como é curioso ver pessoas mais velhas, nos idos dos seus mais de 50 anos, com suas bolsas a tiracolo, em uma bicicletinha cor de rosa e bem cuidada, a caminho de algum lugar.

Por outro motivo que também não faço questão de compreender, me deu uma vontade repentina de viver aquilo. Entrar no clima da cidade, talvez. Uma vontade. E foi o que fiz. Um amigo com uma moto e eu na garupa. O vento batendo forte no rosto, a sensação de liberdade, a fuga dos engarrafamentos, o contato próximo com quem está guiando a maquininha. Paixão à primeira vista, posso dizer, que fez nascer em mim o desejo de ter uma delas, carregar alguém abraçado à minha cintura e sair por aí sem rumo.


Encalhado

Janeiro 22, 2008

Florianópolis. Uma placa indicava “Praia do Forte”. Em frente, a descida de uma ladeira íngreme e bem estreita. A curiosidade falou mais alto do que a chuva que estava a cair, bem leve, mas que deixava a calçada acimentada da descida um tantinho escorregadia. Veio o conselho. “Deixa pra lá, vamos conhecer outros lugares”.

Pra descer… todo santo ajuda

Houve resistência. “Agora eu me retei e vou até lá”. Trechos estreitos e escorregadios até chegar à praia, de areia escura, bonitinha, mas sem qualquer atrativo a mais. Nada que justificasse aquele sacrifício todo de chegar até lá. E o pior era que ninguém havia pensado na necessidade de subir aquela ladeira depois.

E agora? E agora?

Os chuviscos persistiam. E, apesar da aceleração e de as rodas girarem insistentemente, os pneus não saiam do lugar. Estava no meio da ladeira, empacado. Pânico. O carro começou a descer, derrapando, até interromper. “Ai meu Deus, ele não vai subir, meu carrinho!!!!”. “Eu não consigo fazer mais nada. E agora? E agora? Ele não vai subir… meu carrinho novo”. Gargalhadas.

Empurrar? Como?

Dois argentinos olhavam curiosos aquela cena. Todos haviam conseguido subir a ladeira até aquele momento. Em um ato de solidariedade, dispararam: “Querem que a gente ajude a empurrar?” (em espanhol, claro). Não era piada, eles queriam mesmo ajudar. Só não sei como conseguiriam. A única possibilidade era descer de ré, devagar, e tentar acelerar e manter a rotação de lá de baixo.

Aponta pra fé e… acelera

Alguém já acostumado com toda aquela situação embaraçosa também tentou cooperar. O carro derrapava e ele sugeriu. “Puxa o frio de mão e vai lberando devagar, aos poucos”. A intenção era fazer o carro descer na boa, sem bater em uma das pedras que amontoavam-se nas laterais da ladeira. O desespero não permitia entender. “Como é que eu faço isso? Eu não sei fazer mais nada. Ai meu Deus”.

Rotação em 30? Hããããã?

Mais gargalhadas. Finalmente o carro desceu. Mais uma alma boa tentou colaborar. O rapaz da barraca aconselhou. “Acelere e mantenha a rotação da aceleração em 30. Não aumente nem tente reduzir”. Mais desespero. “Como é que eu faço isso, como é que eu faço isso?”. Ele não titubeou. “Olhe no painel do seu carro, oras”. Mais gargalhadas. A barriga já doía de rir de toda aquela cena. 

Com os dois pés???? 

Alguns minutinhos até tomar coragem e tentar mais uma vez. Chave ligada na ignição, pé na embreagem, primeira marcha e aceleração. O carro começou a subir, com aquela aparência de que ia parar novamente. De repente, um gato decide atravessar a rua bem naquele momento. Mais desespero. “Sai gatinho, sai gatinho, saiiiii”. E o gatinho saiu. O carro deu uma derrapadinha, balançou. E o último ajudante gritou. “Acelera com os dois pés”. ”Hã???”. Mais risos. E o carro subiu.   


Nada é por acaso

Janeiro 21, 2008

Minha viagem a Santa Catarina aconteceu por acaso. Um bate-papo no msn, um convite e um sim. Simples assim. Sem rodeios, sem planos, sem programação. Poucos dias depois estava eu de passagens em mãos e bastante animada para conhecer uma parte do País que eu ainda não havia visitado.

Eu tinha duas opções para chegar até uma cidade chamada Itajaí, próxima ao famoso Balneário Camboriú. A primeira, com escala em São Paulo. Pegaria um vôo em Salvador, desceria em Guarulhos, seguiria para Congonhas e pegaria um novo vôo até Navegantes. De lá, atravessaria em um ferry-boat para Itajaí.

Ou então, um avião para Curitiba, com escalas no Rio de Janeiro e, pasmem, Porto Alegre. E de lá, um ônibus para Itajaí. A questão era simples: na primeira opção, eu passaria um dia inteiro viajando, pois os vôos tinham intervalos grandiosos. Eu sairia de Salvador antes das 8 da manhã e não chegaria antes de 20h em SC (o que significaria 21h por lá, devido ao horário de verão).

Na segunda opção, eu levaria sete horas para chegar ao meu destino pela metade do preço, contabilizando os gastos com passagens de ônibus e táxi – um desconforto que valia muito à pena, em se tratando da economia. Obviamente, optei pela segunda opção. Saí de Salvador às 4h20 e às 11h30 estava apreciando a vista aérea de Curitiba. Eu estava realizando um antigo sonho.


Back to real life

Janeiro 21, 2008

Depois das férias maravilhosas no Sul do País, estou de volta a Salvador!!!!
E com todo o pique e todo o gás pra contar muitas históriaS, descrever observações…
Conheci lugares lindos e, melhor, pessoas maravilhosas que aprendi a amar e a respeitar em uma velocidade monstruosa.
É que a gente sente.
Quando é sincero, quando é de coração, a gente sempre sente…