Sem vergonha, eu admito que o que chamou a minha primeira atenção para Saramago, anos atrás, foi seu nome. À época, uma pré-adolescente curiosa que lera em uma revista qualquer um comentário ao livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e vira lá que o autor era José SaraMAGO. Isso. O “mago” foi o que me aproximou deste escritor português. E ainda bem. Confesso também que, aos 13 anos, não tive paciência para digerir “O Evangelho…” e na mesma velocidade em que amei Saramago pelo nome, desisti dele.
Muitos anos depois, tardiamente – mais uma confissão -, resolvi enfrentar aquele meu drama inicial. Não, a linguagem não é difícil, nem o livro é chato. Nada disso. É que as frases longas não compactuaram com a minha necessidade de fácil digestão daquele tempo. Meu reencontro com Saramago foi com “Ensaio sobre a Cegueira”. Um belo dia, entrei num site de comércio eletrônico e comprei o livro, depois de ler um pouco sobre ele nas minhas pesquisas pela rede.
Assumo que tenho uma certa dificuldade de falar sobre o livro. Talvez porque ele tenha me tocado demais. Talvez porque eu tenha interagido intensamente com aquelas linhas. Posso dizer que ele me fez reconstruir uma série de idéias, repensar tantas outras, calcular. Eu posso dizer que o que Saramago faz é exatamente destruir nossas referências, redimensionando a relação entre o homem e o mundo. Era como se eu mesma estivesse cega, ali, tentando reencontrar um caminho.
Não há uma perspectiva histórica no livro, tampouco uma conexão temporal. Ele fala daqui, dali, de ontem, do hoje, do amanhã. Eu, enquanto leitora, qualquer que seja eu, me transformo em personagem do livro, repenso minha postura diante do mundo, repenso meu papel na sociedade. O livro é duro, é violento, é doloroso, agoniante, tenso, aflitivo. A angústia começa na primeira linha. E não acaba com o virar da última página. É uma tortura mental do início ao fim.
Basta imaginar uma sociedade em que todos estamos cegos. Um a um, vamos perdendo a visão. O livro começa com um motorista que fica subitamente cego. Ao abrir o sinal, ele permanece com seu veículo parado. Não conseguia enxergar. Progressivamente, a cegueira vai-se espalhando. O problema vira epidemia e os “contaminados” são confinados para não transmitir o mal aos que ainda enxergam. Mas a cegueira continua a se alastrar… E as pessoas precisam se adaptar a esta nova forma de viver. Como sobreviver?
Para quem tiver paciência de procurar, há sites que disponibilizam a íntegra do livro, inclusive em arquivo .doc (para o word). Mas a minha consciência, diante deste desafio de combate à pirataria, falou mais alto e não vou colocar o link aqui, como fiz com Antígona. Garanto que é uma obra que vale a pena ler. Aliás, que vale a pena comprar.
Escrito por alane virgínia 
Escrito por alane virgínia 
Escrito por alane virgínia
A literatura infantil sempre me fascinou, desde muito pequena, quando esquecia do mundo diante daqueles livrinhos coloridos e cheios de figuras. Uma tentativa de minha mãe para me fazer gostar da leitura. E eu me apaixonei. O que mais me encanta nos textos para os pequenos é a atmosfera, a possibilidade de imaginar. Momo me fez reviver tudo isso, de uma maneira diferente, claro. É como ler O Pequeno Princípe depois de crescido. A interpretação é outra, o clima é outro, mas a fantasia é a mesma.