Ensaio Sobre a Cegueira

Agosto 3, 2008

Sem vergonha, eu admito que o que chamou a minha primeira atenção para Saramago, anos atrás, foi seu nome.  À época, uma pré-adolescente curiosa que lera em uma revista qualquer um comentário ao livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e vira lá que o autor era José SaraMAGO. Isso. O “mago” foi o que me aproximou deste escritor português. E ainda bem. Confesso também que, aos 13 anos, não tive paciência para digerir “O Evangelho…” e na mesma velocidade em que amei Saramago pelo nome, desisti dele. 

Muitos anos depois, tardiamente – mais uma confissão -, resolvi enfrentar aquele meu drama inicial. Não, a linguagem não é difícil, nem o livro é chato. Nada disso. É que as frases longas não compactuaram com a minha necessidade de fácil digestão daquele tempo. Meu reencontro com Saramago foi com “Ensaio sobre a Cegueira”. Um belo dia, entrei num site de comércio eletrônico e comprei o livro, depois de ler um pouco sobre ele nas minhas pesquisas pela rede.

Assumo que tenho uma certa dificuldade de falar sobre o livro. Talvez porque ele tenha me tocado demais. Talvez porque eu tenha interagido intensamente com aquelas linhas. Posso dizer que ele me fez reconstruir uma série de idéias, repensar tantas outras, calcular. Eu posso dizer que o que Saramago faz é exatamente destruir nossas referências, redimensionando a relação entre o homem e o mundo. Era como se eu mesma estivesse cega, ali, tentando reencontrar um caminho.

Não há uma perspectiva histórica no livro, tampouco uma conexão temporal. Ele fala daqui, dali, de ontem, do hoje, do amanhã. Eu, enquanto leitora, qualquer que seja eu, me transformo em personagem do livro, repenso minha postura diante do mundo, repenso meu papel na sociedade. O livro é duro, é violento, é doloroso, agoniante, tenso, aflitivo. A angústia começa na primeira linha. E não acaba com o virar da última página. É uma tortura mental do início ao fim.

Basta imaginar uma sociedade em que todos estamos cegos. Um a um, vamos perdendo a visão. O livro começa com um motorista que fica subitamente cego. Ao abrir o sinal, ele permanece com seu veículo parado. Não conseguia enxergar. Progressivamente, a cegueira vai-se espalhando. O problema vira epidemia e os “contaminados” são confinados para não transmitir o mal aos que ainda enxergam. Mas a cegueira continua a se alastrar… E as pessoas precisam se adaptar a esta nova forma de viver. Como sobreviver?

Para quem tiver paciência de procurar, há sites que disponibilizam a íntegra do livro, inclusive em arquivo .doc (para o word). Mas a minha consciência, diante deste desafio de combate à pirataria, falou mais alto e não vou colocar o link aqui, como fiz com Antígona. Garanto que é uma obra que vale a pena ler. Aliás, que vale a pena comprar.


Antígona

Maio 21, 2008

Honra, lealdade, justiça. Sentimentos nobres. E tenho visto o quão carente está nossa sociedade de atitudes pautadas nestas curtas, porém significativas palavras. Antígona fez aflorar em mim questionamentos sobre a importância de cultivarmos estas sementinhas. O livro, resultado de uma peça escrita por Sófocles, traz a luta de Antígona para dar ao irmão Polinice um sepultamento digno, depois que o rei Creonte -seu tio- proclamou pela cidade a ordem de deixá-lo insepulto, sem homenagens fúnebres, por tê-lo considerado um traidor.

Revoltada com a decisão do rei e disposta a cumprir o que considerava um dever – o de permitir que seu irmão fosse enterrado -, ela tenta ganhar o apoio da irmã, Ismênia. Submissa às leis da terra, no entanto, Ismênia aceita o destino imposto ao irmão, por medo das conseqüências da decisão de desobedecer às ordens superiores. Ela viu os pais morrer, um irmão matar o outro pelo trono do pai e, naquele momento, temia a terrível morte que caberia às duas se contrariassem a vontade do rei. Mas Antígona decide, mesmo sozinha, levar adiante seu plano, e o livro narra a sua saga.

A peça foi encenada pela primeira vez em 441 a.C. E é fácil identificar o contexto histórico inserido naquelas passagens. Grécia, período em que nasciam as cidades (pólis), os indivíduos começam a exigir seus direitos. O livro fala em exercício de cidadania, em democracia, em direitos, em luta pelo que é justo (não no sentido jurídico reducionista do termo), em enfrentar, na importância da luta, de não se deixar curvar diante das aberrações, de se permitir contrariar, desafiar, de ser leal a princípios e de morrer por um ideal que vale a pena. 

Antígona fala do hoje, fala de valores que se dissiparam em nossa sociedade. Embora escrito há séculos, traz princípios que deveriam nortear nossas condutas a todo o tempo. Mas que acabamos deixando de lado por razões infinitas. Os diálogos narrados na peça me fizeram repensar nossos papéis de juízes. Em quantas vezes vestimos nossas togas e disparamos sentenças para todos os lados. Pra mim, ali está um material farto sobre sociologia jurídica. Um texto curto, fácil de ler, e que pode suscitar debates sobre a dicotomia jurídica do “ser” e do “dever ser”.

Passagens

Desta vez, ao invés de trechos, deixarei o link para quem quiser ler o livro na íntegra em arquivo pdf. Vale a pena comprar também. É bem baratinho e você terá a oportunidade de carregar embaixo do braço a vida toda.


O Livro dos Abraços

Abril 19, 2008

     Tem coisa mais gostosa que um abraço? Daquele bem apertado, bem forte, de nos fazer fechar os olhos e sorrir sem sentir? É essa a sensação de leitura do Livro dos Abraços, do uruguaio Eduardo Galeano. O livro é um prato de pequenas histórias, passagens de vida. Fatos que normalmente nos passam despercebidos, que na maioria das vezes tratamos como acontecimentos rotineiros. Que os são, na verdade. 

No momento em que reunimos tudo isso, que imprimimos nossa memória e a compartilhamos, é possível compreender quanta força possui os acontecimentos do dia-a-dia, quanto eles nos dizem e nem sempre apreendemos. É daquelas obras pra ler a vida inteira, pra ler na ordem ou fora dela; para começar do fim, para terminar no começo. Para ler em qualquer lugar. Para reler continuamente.

Cada história tem um significado, um sentimento. É vida. São pequenos momentos contados, cada um deles, em poucas linhas. Mas a profundidade é imensa. Tão grande que simplesmente não tem fim. A gente entra nas histórias, reflete, imagina por quantas situações corriqueiras já passamos e tão pouca importância demos. E eu ficava me perguntando, a cada nova linha, quanta coisa linda… 

Passagens

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo“.

Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia“.

Os índios são bobos., vagbundos, bêbados. Mas o sistema que os despreza, despreza o que ignora, porque ignora o que teme. Por trás da máscara do desprezo aparece o pânico: estas vozes antigas, teimosamente vivas, o que dizem? O que dizem quando falam? O que dizem quando calam?


Persépolis

Janeiro 31, 2008

Os quadrinhos entraram em minha vida com a Turma da Mônica, do Maurício de Souza. Logo que aprendi a ler, meu pai decidiu fazer a assinatura das revistinhas. De lá para cá, desenvolvi uma relação de paixão por tirinhas de todo gênero, embora pouco tenha me aprofundado sobre elas. Eu simplesmente gostava de dedicar meu tempo a este tipo de leitura. Está aí um verdadeiro nariz de cera para falar sobre Persépolis, a autobiografia da iraniana Marjane Satrapi, contada em quadrinhos.

Simplesmente fascinante conhecer sua vida, sua visão da revolução islâmica, a guerra contra o Iraque, seus dramas, revoltas e posicionamentos sobre o sistema político instalado em seu País. Não apenas pela beleza com que consegue passar para o leitor um pedaço dramático da história mundial, mas também pela leveza do texto, pela carga emocional contida nele e pelas ilustrações.

Os quadrinhos são divididos em 4 livros, mas é possível comprar a obra completa em um único volume lançado no final do ano passado. A linguagem é simples e a leitura é instigante, ao ponto de captar toda a atenção, enquanto as horas passam completamente despercebidas. O resultado é um livro com formato e conteúdo bem equilibrados, que consegue envolver o leitor ao tempo em que transmite emoção e muita informação sobre o Irã, política, estereótipos, comportamentos e afins. E acabou virando animação nas telonas.

Passagens

“Se eles soubessem… se apenas soubessem que enquanto eles eram bombardeados diariamente a filha deles se maquiava como uma punk, fumava baseados para causar boa impressão… não diriam mais que eu era a filha dos seus sonhos”

“Naquele dia, aprendi uma coisa fundamental: só podemos ter dó de nós mesmos quando ainda é possível suportar a infelicidade… quando ultrapassamos esse limite, o único jeito de suportar o insuportável é rir dele”

“Era uma ocidental no Irã, uma iraniana no Ocidente. Não tinha identidade alguma, não via nem mesmo por que estar viva”

“Era engraçado ver que a república islâmica não soube mesmo dar um fim no nosso chauvinismo. Pelo contrário! As pessoas costumavam comparar o obscurantismo do novo regime à invasão árabe. Segundo essa lógica, ´ser persa` queria dizer ´não ser fanático`. Acontece que o limite desse paralelo era o nosso governo, composto não de invasores árabes, mas de integristas persas”


Momo e o Senhor do Tempo

Dezembro 21, 2007

momo1.jpgA literatura infantil sempre me fascinou, desde muito pequena, quando esquecia do mundo diante daqueles livrinhos coloridos e cheios de figuras. Uma tentativa de minha mãe para me fazer gostar da leitura. E eu me apaixonei. O que mais me encanta nos textos para os pequenos é a atmosfera, a possibilidade de imaginar. Momo me fez reviver tudo isso, de uma maneira diferente, claro. É como ler O Pequeno Princípe depois de crescido. A interpretação é outra, o clima é outro, mas a fantasia é a mesma.

Em Momo e o Senhor do Tempo, a história da luta de uma menina para tomar de volta o tempo roubado das pessoas pelos homens cinzentos é incrivelmente bela. Os homens cinzentos se alimentam exatamente do tempo poupado por cada indivíduo. Por isso, precisam convencê-los de que não têm tempo a perder. Os seres humanos, ao crer que precisam economizar tempo, passam a cumprir suas tarefas de forma sempre ligeira. Deixam de se dedicar ao que lhes dá prazer, ao que lhes traz felicidade.

Assim, os homens cinzentos vão-se multiplicando. E os seres humanos, cada vez mais isolados em seus próprios mundinhos, sempre irritados, mau humorados, dedicando-se apenas às atvidades que garantem o sustento da família. Pior é que até Gigi caiu nessa. Logo Gigi! É apaixonante o livro. É apaixonante viajar nas frases singelas, mas cheias de expressão. Vale a pena demais conhecer Momo, Gigi, Beepo Varredor e a tartaruga.

Passagens

“Vou lhe dizer uma coisa, Momo: as coisas mais perigosas na vida são os sonhos realizados… Não tenho mais com o que sonhar”

“Assim como vocês têm olhos para enxergar a luz, ouvidos para ouvir sons, também têm um coração para perceber o tempo. Todo o tempo que não é percebido pelo coração é tão desperdiçado quanto seriam as cores do arco-íris para um cego ou o canto de um pássaro para um surdo”


Direito à Preguiça

Dezembro 12, 2007

thumb.jpgPaul Lafargue foi um militante socialista francês. Defensor dos ideais marxistas, coincidência ou não, acabou casando com a filha caçula de Marx – se é que isso tem alguma relevância. De qualquer forma, é ele quem assina “Direito à Preguiça”, resultado da reunião de uma série de artigos publicados no jornal L´égalité nos idos de 1880. Seus textos revelam-se críticas contundentes ao regime capitalista e ao que os autores chamam de ”santificação” do trabalho, ou ainda, “religião” do trabalho”.

Apesar de escrito há mais de cem anos, o livro continua bastante atual e deixa aberto o debate. É só contextualizar, atualizar os conceitos, e temos uma obra maravilhosa em mãos. Sem contar que a introdução do livro – que facilmente poderia ser publicada como uma obra à parte – é de Marilena Chauí. 

Passagens

O ideal da moral capitalista é reduzir o produtor ao mínimo de necessidades; suprimir suas alegrias e paixões e condená-lo ao papel de máquina de gerar trabalho, sem trégua e sem piedade

Trabalhem, trabalhem operários, para aumentar a riqueza social e suas misérias individuais… para que, ficando mais pobres, tenham mais razões para trabalhar

Introduza-se aí o trabalho nas fábricas e adeus alegria, saúde, liberdade; adeus a tudo aquilo que faz a vida bela e digna de ser vivida