Excessos de linguagem

julho 24, 2008

Tentei me fazer prolixa, me exceder - complicar, confesso. Divaguei além do que eu mesma compreendia. Escolhi as metáforas mais impróprias, abusei dos pleonasmos. Me apropriei dos sons, exagerei nas paronomásias. Não resisti a acrescentar uma inversão aqui, outra ali. Não, eu nada escrevia. Discorria verbalmente, ligeira e impensadamente. Me recuso a aceitar a idéia do exercício mental, teste, prova. Só não queria ser compreendida. Seria mais fácil.

A ironia poderia ter dado melhores resultados, mas não quis ser tão cruel. Meus excessos bastaram-se naquela reunião irritante de vernáculos. Linguagem, pensamento, som… figuras. Sim à antítese; sim à gradação; sim à metonímia… Elas saíam de mim uma após a outra. Quanto mais absurdas as expresões ficavam, mais absurdas eu as tornava. Mais e mais, cada hora mais, cada momento mais. O tempo passava lentamente enquanto eu vomitava novas sílabas.

O céu já estava acinzentado quando me dei conta de que havia chegado ao fim. Coloquei um ponto final na minha explanação bruscamente. Ele ouvira cada linha, calado. Sua feição inerte me afligia. Não fez qualquer comentário, qualquer interrupção. Não me pediu a palavra um momento sequer. Aqueles segundos de silêncio que se seguiram pareciam horas inteiras pra mim. Cheguei a crer que ele nada falaria. Que levantaria, mudo, e sumiria na escuridão. Meus pensamentos já iam distantes, quando ele se pronunciou.

-Eu não vou desistir de nós dois.


Recosto

julho 8, 2008

Tinha uma única árvore ali. Só ela, ali, imperiosa. Olhei um pouco à distância. Uns breves segundos se passaram, até eu decidir encostar, estirar o lençol e dormir um pouco. Aquela sombra, fazia tempo que não via nada igual.


Porta-retrato (Parte 5)

junho 7, 2008

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Parte 4
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O sábado demorou a chegar. Lila já havia escolhido o vestido vermelho com estampas florais para o aniversário da avó. O sapatinho vermelho e a meia branca davam charme ao visual. Os cabelos foram cuidadosamente encaracolados. Aquele era um dia especial. Lila não via a hora de dar um abraço bem apertado em Duduca, de entregar o presente tão carinhosamente preparado e de ver a reação da vovozinha ao ver as fotos mais lindas do mundo reunidas ali.

O relógio já marcava meio-dia, quando uma buzina de um carro tocou lá fora. Lila correu para ver se era o pai. Seu Haroldo tinha combinado que passaria em casa para pegá-la e levá-la ao Parque das Estrelas, onde morava sua mãe. Sara também já estava pronta. Eles combinaram de almoçar juntos com Dona Hilda há vários dias. Com o embrulho embaixo do braço, Lila foi a primeira a enrar no carro. E a mamãe Sara entrou logo em seguida.

Havia chegado a hora de comemorar a data tão importante pra menina. (continua…)


Porta-retrato (parte 4)

maio 25, 2008

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Passava das cinco horas da tarde, quando finalmente Lila terminou a difícil tarefa de preparar o presente da vovó. As fotos eram realmente lindas, tinham um brilho e uma singeleza típicos. Ali estavam guardados momentos especiais, desde o nascimento da menina até a semana anterior, quando da entrega do porta-retrato enfeitado com nuvens, estrelas e a lua. Agora Dona Hilda teria a semana inteira para reviver histórias, relembrar datas. Mesmo quando não tivesse a pequena do seu lado.

Ao colocar a última foto no último saquinho plástico do álbum, Lila sorriu. A felicidade era tamanha que ela não conseguiu conter e saiu a mostrar o resultado do seu trabalho pela casa. A mamãe Sara fez tanto elogio que Lila ficou vermelha de satisfação. O papai, nem se fala. Seu Haroldo era pouco sorridente, de fisionomia séria a maior parte do tempo. Ele também não resistira ao ver os olhinhos negros da pequenina brilharem. Mais que um sorriso, deu um abraço apertado na menina. E Lila entendeu a mensagem do pai que tanto amava. (continua…)


Porta-retrato (parte 3)

maio 24, 2008

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Difícil seria escolher as fotografias. Foram tantas ao longo desses seis anos. De todos os jeitos, em todos os lugares, com todas as caras, de todas as cores. Lila queria fazer um álbum bem bonito, colorido, que tivesse risos, muitos risos estampados em cada uma de suas páginas. Queria que a vovó Hilda risse cada vez mais ao passar as folhas e relembrar as estripulias das duas, quanta coisa boa já viveram juntas.

Lila passou toda a tarde sentada no chão, sobre o tapete em formato de peixe que ganhara da vozinha no último Natal, cercada por fotografias. Ao mesmo tempo em que escolhia o que colocar no álbum da vovó, gargalhava com as fotos mais incomuns, como aquela tirada no ano passado, no sítio da família na Ilha da Luz. Dona Hilda tentava convencer a menina a banhar-se numa cachoeira de águas cristalinas, enquanto Lila chorava apavorada de medo de a água levá-la para longe da vovó. (continua…)


Porta-retrato (parte 2)

maio 24, 2008

Era um laço forte. Elas haviam criado uma relação de dar inveja a qualquer avó e a qualquer neta também. Eram mãe e filha, amigas… Ela contava histórias de super-heróis, criava monstros bonzinhos, brincava de desenhar, de mímica, de boneca… Dona Hilda era mais legal que um monte de suas amiguinhas do colégio, porque além de tudo, ainda sabia cozinhar divinamente bem. Lila adorava isso. E aquele seria um final de semana especial.

Sua vozinha completaria 70 anos. Uma eternidade para a pequena que não havia chegado nem aos dez. O grande problema desta vez era escolher o presente. Uma semana inteira de aflição até escolher a lembrancinha para a vovó. E quando olhou, não teve a menor dúvida: o álbum de fotografias estava na prateleira, esperando por ela. Cheio de figurinhas coloridas, bichinhos sorridentes. Ali guardaria as melhores lembranças das suas vidas. (continua…)

Leia também:
Porta-retrato (parte 1)


Porta-retrato (parte 1)

maio 23, 2008

Lila adorava doce de abóbora. Aquele que sua vozinha preparava para aguardar a visita da neta nos finais de semana era o seu preferido. Calda grossa, pedacinhos de coco ralado. Nada se comparava ao sabor da sobremesa feita com tanto carinho por Dona Hilda. A menina arrumava sua sacolinha na quinta-feira. Ansiosa que ficava para ver a vozinha, não queria esquecer de levar nada. As roupas mais bonitas, os brinquedos e um presentinho bem especial para Duduca, como era conhecida a velhinha. Uma semana eram bombons, na outra flores, um porta-retrato bem bonito… Lila havia perdido a conta de quantas lembrancinhas entregara à avó ao longo deste ano.

(continua…)


Despedida – Parte 5

março 28, 2008

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Despedida – Parte 1
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Dois dias se passaram sem que ao menos se falassem. Quarenta e oito horas depois daquela troca de palavras, um número não identificado aparecia em ligações a seu celular. Um pouco cansada da rotina de trabalho, chegou a pensar em não atender. Mas a insistência daquela pessoa lhe tirou a idéia inicial de ignorar o fato. Do outro lado, Luciano dava um boa noite animado, já reclamando da demora dela em atender.

Conversaram, riram, atualizaram um ao outro com as novidades. Marcela, André (o casinho de Samanta) e risos. “Você está fazendo o quê?”, ele lhe perguntara durante o papo. A resposta era a mesma dos últimos tempos: nada, ela estava de maresia, deitada, falando com ele. “Vamos sair? Conversar…”. Ela não fez questão de recusar. Em vinte minutos, a buzina do carro de Luciano tocava lá embaixo. E ela desceu e saíram.

Não, aquela conversa de dois dias atrás não existiu. Aqueles vinte e três minutos… Eles seguiram rindo, conversando, falando as mesmas bobagens de sempre. Desta vez, o destino foi um motel ainda não visitado. “Você conhece esse daí?”. Ela respondeu espontaneamente que não. E eles ali entraram. E lá conversaram por vários minutos, mais de uma hora talvez. Mais novidades sobre Marcela, sobre André. Mais risos, bobagens, filme na tevê.

Até se entregarem ao sexo. Como sempre fizeram. A mesma história, a mesma rotina. Como se nada tivesse acontecido. E nada havia acontecido mesmo. Nada além de mais um papo, entre tantos. E não seria o último. Beijos, enroscar de pernas, arrancar de roupas. O sexo havia melhorado muito. E ainda que sempre transassem como se fosse a primeira vez, era sempre cada vez melhor. E cansaram, e suaram, e se banharam, e se vestiram, e pagaram a conta, e saíram. Cada um para sua casa, de volta à vida real. Porque aquilo ali era só fantasia. Daquelas de durar a eternidade.


Despedida – Parte 4

março 28, 2008

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Despedida – Parte 1
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Despedida – Parte 3
Despedida – Parte 5
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Uma relação mal resolvida. Foi o que aconteceu. Começou e terminou bruscamente. Ele, estressado e indeciso. Ela, com medo de dar uma nova chance e sofrer de novo. E assim, tudo chegou ao fim. Não era o que eles queriam de verdade. Os planos eram comprar aquele apartamento que eles viram no jornal e casar no final do ano. Tudo já estava certo. Mas ele não conseguiu superar a sensação de insegurança que ela lhe injetara.

Ela olhou no relógio. Eram 11 horas e alguns minutos de uma noite de segunda-feira. Aquela conversa, de alguma forma, a deixara mais cansada, menos disposta. Obrigou-a a fazer uma longa avaliação de vida, repensar uma série de coisas. Mentalmente, ela estava cansada. A alma, entretanto, estava mais leve. Era preciso pôr um ponto final naquela história de amor, que há muito estava restrita ao sexo.

Ao desligar o telefone, Samanta percebeu que desligava, ao mesmo tempo, a possibilidade de ter Luciano de volta aos 40 anos e pouquinho, depois de terem vivido tudo, mas com disposição a enfrentar uma nova vida a dois, mais intensa, mais tranquila, mais madura. São coisas da vida, ela pensou, enquanto ria da situação. Dez anos se passaram e eles ainda se preocupavam com o que aconteceria. Era mesmo engraçado.


Despedida – Parte 3

março 26, 2008

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Despedida – Parte 1
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Ele, apaixonado. Quem diria. Claro que ela sabia que isso aconteceria um dia. Ela mesma já se apaixonara depois dele. Vivera uma relação complexa, um quase casamento, seria mais correto dizer. Ela ouvia o desabafo dele com atenção. O êxtase ao pronunciar cada letra, contando os últimos acontecimentos ao lado da mais recente aquisição emocional, deixava ela enlevada. A atenção de sempre. Durante esse tempo de conquista, fora ela quem o aconselhava, quem lhe dizia como deveria agir e o que fazer para ganhar Marcela de uma vez por todas. E depois de um processo lento, ele conseguiu.

Marcela agora já mostrava sinais de retribuição. E ele, aos trinta e poucos anos, vivenciava novamente aquele nervosismo adolescente, aquele friozinho estranho que gela o corpo quando o telefone toca, quando uma mensagem chega, quando há um encontro. Ela também estava se relacionando com outra pessoa. Um cara sensacional, como ela mesma descrevera. Alguém com quem não acreditava que fosse possível se envolver por uma série de motivos. Eles eram muito diferentes, em absolutamente tudo. E apesar de ele ser tão maravilhoso, ela não conseguia se entregar fácil, se apaixonar rápido. Tudo caminhava a passos vagarosos, demorados.

Enquanto ele falava sem parar, engatando já a quinta marcha, ela percebia que um vínculo estava se partindo. Um laço era cortado naquele instante que insistia não acabar. Não o da amizade, o da cumplicidade. Este eles nunca abriram mão. Mantiveram firme, quiseram que fosse assim. Mas o vínculo do amor, este sim, sofria um impacto forte. Não, eles não deixariam de se amar. Mas deixariam de amar daquele jeito deles. Não tinha como não ser diferente a partir de agora. Ainda que ele fizesse questão de pronunciar um enérgico “eu te amo” ao desligar cada telefonema, a expressão já não fazia mais o mesmo sentido desde que Marcela entrara em sua vida.


Despedida – Parte 2

março 26, 2008

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Quanta coisa podia ser dita em vinte minutos. Vinte e três, aliás. Vinte e três minutos e quarenta e sete segundos exatamente. Eles conseguiram remontar toda a trajetória do até então casal: ele sempre emocional, o ciumento da relação, aquele que derramava as lágrimas, que se estressava. Ela, dura, inteira, menina madura à beira dos seus vinte anos. Era o que ele devia pensar. Ele nem imaginava o quanto ela sofria com a distância repentina dele. Sentia-se fragilizada e angustiada às vezes. Só ele não percebia. E sempre fora melhor assim.

Foram muitas coisas boas compartilhadas. Juntos, descobriram o amor. Ele, acostumado a dominar as relações, a ver as meninas aos seus pés, caiu aos pés dela, segura e independente. Uma união que tinha tudo pra dar errado, pelas diferenças, pelas expectativas, pelas ambições. Mas deu certo. Desde o primeiro dia, quando ele arrancou dela uma seqüência de oito números e anotou num pedaço qualquer de papel. Desde os dias seguintes e as mais de cinco horas diárias de conversação. Amanheciam o dia com sorrisos doces de um lado e do outro da linha. Desde o primeiro beijo, naquela sala escura de cinema, depois de uma piada mal feita dele. E ele nunca soube que a ganhara ali. Eles sempre deram certo.

A impressão era que aquela ligação durava dias. Já estariam conectados por fios há incontáveis horas. A densidade das palavras, os sentimentos aguçados alimentavam essa sensação esquisita de continuidade. Falaram sobre como tudo fora bom, as situações que enfrentaram juntos, os dois términos repentinos, o filho que quase tiveram. Talvez este, sim, o momento mais tenso. Ele nunca tocara no assunto depois que ela decidiu, sozinha, tirar aquela criança. Eles eram tão novos. Um bebê naquele momento não seria a melhor opção. Pra ela pelo menos. Fato é que ele, mais uma vez, calou-se. E do silêncio fizeram-se palavras. Protesto silencioso, e sempre comovente.

Palavras sucederam palavras e mais risos surgiram. Demonstrações claras de afeto e, por que não dizer, amor. Eles sempre se amaram. Sabiam disso como ninguém. O júbilo era também de saudade. Eles se davam conta, pelo menos ela, de que aquilo era mesmo uma conclusão, um círculo que fechava. Se ele pudesse vê-la naquele momento, compreenderia seu semblante confuso. É que ele sempre prometera ficar ao lado dela. Inúmeras vezes ela ouvira dele que só sairia de sua vida quando ela quisesse, porque ele, ele nunca iria querer. Inúmeras vezes ouvira o “eu te amo” mais sincero que já lhe havia sido dito. Mesmo durante outras relações, ouvira dele que a amava, que a esperaria.


Despedida – parte 1

março 24, 2008

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>> Despedida – Parte 5
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O tom era de despedida naquele telefonema. Depois de tantos anos, de tantas histórias, de dramas, finalmente conseguiam dizer adeus. Uma alegria explosiva nele, redescobrindo um sentimento adormecido já há algum tempo, desde que terminara com ela, por imaturidade, muitos anos atrás. Cultivavam uma relação bonita, de entrega, de doação, de amor. Para ela, uma relação que duraria a eternidade: um belo dia se assumiriam apaixonados novamente. Mas não seria mais assim.

Vinte minutos de uma ligação em que falaram do tanto que ele estava feliz e encantado. A ela, ele dispensara alguns minutos, sim. Não apenas para afirmar o quanto ela resistia ao envolvimento (esse negócio de paixão era mais complicado pra ela), mas também para reviver a história dos dois, lembrar de momentos. O riso sereno dele não mudara, ainda quando falava coisas ofensivas a outros ouvidos – nunca aos dela. É que para ele, nos últimos tempos, eles só transavam quando nada mais tinham a conversar. Chegavam ao motel, dedicavam horas a trocar palavras e experiências, a dar conselhos, e quando faltava o papo é que se entregavam ao sexo.

Não era como ela enxergava a situação. Sua interpretação sempre fora outra, mais romântica. Aquela era a relação perfeita, o auge entre o casal. Eles conciliavam sexo e diálogo na dosagem perfeita. Falavam sobre tudo, transcendiam, e se entregavam aos braços do outro como se fosse a primeira noite. Como se virgem ainda fossem, como há dez anos. Não, ela não o amava mais como antes. Não sofria ao vê-lo tão apaixonado. Pelo contrário, ela estava feliz por ele. É que ela simplesmente não achava que aquele momento chegaria. Tê-lo ao seu lado a vida inteira sempre fora tão prazeroso…

(continua em Invenções: Despedida – parte 2)


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